Shawn James fala sobre “Passage” e música como terapia antes de shows no Brasil

O cantor, compositor e multi-instrumentista norte-americano Shawn James lançou Passage, seu novo álbum de estúdio, em 12 de junho.
Liderado pela faixa “Headed for the End”, que também ganhou videoclipe, o disco chega pouco antes de uma nova turnê pelo Brasil, com shows em Porto Alegre, no dia 6 de agosto, no Teatro Opinião; em São Paulo, no dia 7 de agosto, no Cine Joia; e em Curitiba, no dia 8 de agosto, no Hard Rock Café. Para mais informações sobre ingressos, clique aqui.
Conhecido mundialmente por “Through The Valley”, canção que ganhou grande alcance com The Last of Us, James conversou com o TMDQA! sobre a nova fase, infância, música como terapia, os discos que mudaram sua vida e a relação intensa que criou com o público brasileiro.
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Entrevista com Shawn James
TMDQA!: Passage parece marcar um novo capítulo no seu trabalho. Quando você olha para esse álbum agora, o que parece diferente em relação aos discos anteriores?
Shawn James: Acho que é um progresso, um amadurecimento em relação ao lugar onde eu estava antes. Estou em turnê há 14 anos, viajando pelo mundo, lançando minha música, centenas de canções. No passado, eu era um pouco mais ingênuo, vinha de um lugar de simplesmente fazer e aprender.
Agora estou ficando mais velho, já tem cabelo grisalho na minha barba. Viajei muito mais, vivi mais coisas, e acho que estou trazendo essa experiência para as músicas novas. Hoje sinto que sei contar uma história do jeito que eu realmente quero, mais do que nunca.
Uma coisa bonita nesse álbum é que, embora ele seja novo, me lembra uma combinação de dois discos meus. O primeiro que lancei, Shadows, que muitos fãs adoram, é muito cru, gravado de forma DIY, com muitas arestas. E ele também me lembra The Dark and the Light, que é o álbum mais produzido que já lancei. Passage parece estar no meio disso. Tem a crueza e tem a produção necessária. Acho isso poderoso.
TMDQA!: A palavra “passage” sugere movimento, mas também perda, deixar coisas para trás e até morte em alguns contextos. O que essa palavra significou para você quando virou o título do álbum?
Shawn James: Acho que preciso começar um pouco antes para explicar isso. O último álbum que lançamos foi um disco conceitual chamado Honor and Vengeance. Ele era muito específico. Eu escrevi a história antes de escrever as músicas. Era um álbum sobre faroeste, foras da lei, bandidos.
Quando comecei este disco, eu não sabia como ele se chamaria. Eu não queria uma diretriz. Não queria que todas as músicas estivessem relacionadas. Queria que cada canção fosse sua própria história, para que você não precisasse ouvir o álbum inteiro para entender tudo, como acontecia no anterior.
Enquanto eu escrevia, estava refletindo muito sobre meu passado, sobre quem eu era e quem eu queria ser. Também estava pensando em deixar velhos hábitos para trás e tentar me tornar uma versão melhor de mim mesmo. Depois que escrevi o álbum, comecei a pensar no título. Para mim, cada disco que lanço é como uma fotografia de quem eu era e do que eu estava pensando naquele momento. Este é igual. Ele mostra o que estou vivendo agora, onde estou agora.
Passage significa outro capítulo. É como se eu tivesse vindo do último álbum até aqui e agora estivesse olhando para as coisas de outro jeito. Foi por isso que decidi chamá-lo assim. Parece mais um capítulo nessa jornada que é a música e a vida em geral.
TMDQA!: Por quanto tempo você escreveu Passage?
Shawn James: Comecei a escrever Passage cerca de um ano e meio atrás. Terminamos de gravar nossas partes em agosto do ano passado, e em novembro ele já estava mixado e masterizado. Então fiquei com essas músicas por bastante tempo. É estranho ter essas canções, conhecê-las por tanto tempo e não compartilhá-las com ninguém.
Mas também há uma beleza nisso. Quando escrevi, talvez eu estivesse pensando em uma coisa, em um sentimento ou emoção. Depois, ouvindo o disco quase um ano e meio mais tarde, passei a enxergar as músicas de outro jeito. Às vezes você escreve uma canção e não sabe exatamente sobre o que ela é. São sentimentos que você está tendo. Um ano depois, ou anos depois, você olha para trás e percebe: “isso era um reflexo direto do que eu estava vivendo”. E eu nem sabia que estava escrevendo sobre aquilo.
TMDQA!: Você falou sobre olhar para si mesmo, e isso lembra muito terapia. A música funciona assim para você?
Shawn James: Cem por cento. Já falei sobre isso muitas vezes, mas a música é uma enorme forma de terapia para mim. Eu também já fiz terapia, e hoje reconheço que a música sempre foi terapia de alguma forma. Ela sempre foi outra forma disso.
Acho que esse é um dos motivos pelos quais as pessoas se conectam com o que faço. A música é terapêutica para mim, é autêntica, é genuína, fala de coisas que estou vivendo. As pessoas conseguem se conectar porque parece real.
TMDQA!: Em Tired of Trying, você toca em exaustão, excesso e álcool sem transformar isso em discurso direto. De onde veio essa música?
Shawn James: Meu pai morreu quando eu era muito jovem porque era alcoólatra. Ele morreu por beber demais. Por muito tempo, eu evitei o álcool. Achava que era algo ruim. Ele também era um homem muito violento quando estava bravo e bêbado, e eu achava que era a bebida que fazia aquilo.
Depois fui ficando mais velho, convivi com pessoas que bebiam e ficavam bem, saudáveis. Então percebi que havia mais coisas envolvidas. Experimentei um pouco e, quando era mais jovem, bebi muito mais. Conforme fui envelhecendo, notei que o álcool talvez não estivesse me servindo da mesma forma que antes.
Tired of Trying é uma das músicas mais pesadas do disco. Eu estava passando por uma fase de esgotamento. Estava cansado de tudo: turnê, essa busca infinita por mais seguidores, mais curtidas, mais inscritos, mais disso, mais álcool, mais diversão, mais. Parecia que nunca acabava. Comecei a me sentir exausto e não sabia por quê.
Acho que foi daí que veio Tired of Trying: estou cansado de tentar para quê? Por quê? Hoje eu tenho esses motivos, claro, mas naquele momento acho que precisava de uma pausa para reavaliar por que estava fazendo tudo aquilo e qual era o sentido.
Escrevi essa música em um ano em que não estava em tanta turnê. Quando ficamos muito ocupados e enchemos a vida de coisas, acabamos distraídos. Quando desaceleramos, os problemas reais voltam. Acho que essa música veio desse momento em que parei e percebi: eu estou insatisfeito. Não era sobre preencher minha vida com mais e mais coisas. Era sobre encarar o que estava ali.
TMDQA!: Sua voz carrega uma intensidade muito física. Ela pode soar íntima e confrontadora ao mesmo tempo. Você sente que controla essas nuances ou é algo mais ligado a desligar o mundo e deixar sair naturalmente?
Shawn James: Conforme fui ficando mais velho, passei a entender melhor como controlar a voz. Quando ouço Shadows, meu primeiro álbum, escuto uma versão muito mais jovem de mim. Alguém que simplesmente deixava tudo sair, sem pensar muito, apenas performando.
Com os anos, aprendi melhor como minha voz funciona. Hoje penso mais na emoção da música. Sobre o que é a canção? Como a voz pode servir à emoção que estou tentando escrever? Como faço as pessoas sentirem algo?
Sempre vai existir uma mistura entre a honestidade daquilo que você precisa colocar para fora e esse ato de desligar tudo e deixar sair. Mas, com o tempo, encontrei formas melhores de controlar a voz para conseguir me explicar melhor, contar melhor as histórias e entregar as emoções que eu quero.
TMDQA!: E tem muitos ‘mi-me-ma-mo-mu’s? (risos) [forma de descrever exercício de aquecimento das pregas vocais]
Quando estou em turnê, também preciso tomar mais cuidado. Quando era mais jovem, podia fazer qualquer coisa, acordar no dia seguinte e estar perfeito. Agora preciso aquecer, beber bastante chá com mel. Tem um pouco disso também.
TMDQA!: Entre os discos que mudaram sua vida, você citou Nina Simone e Sam Cooke. Os dois tinham uma capacidade rara de fazer uma música soar espiritual, política e profundamente pessoal ao mesmo tempo. O que você aprendeu com eles?
Shawn James: Eu sou uma combinação das coisas que me inspiraram. As pessoas perguntam de onde vêm meus vocais, de onde vem meu estilo. E eu digo: vem de tudo que ouvi crescendo, de tudo que ouço agora. É uma mistura do que me inspira.
Nina Simone é muito importante para mim. Sim, ela conseguia fazer declarações políticas com a música, de uma forma artística, em que você precisava traduzir aquilo. Mas o que mais gosto nela é a intensidade da autenticidade com que ela se apresentava. Muitos artistas parecem usar uma máscara, como se fosse uma atuação teatral. Com ela, eu sentia que era real. Eram as emoções dela. Ela estava sendo honesta e genuína. Às vezes, era como se ela sangrasse na sua frente.
Acho que uma parte disso não pode ser ensinada. Você precisa ter algumas experiências na vida para aprender a expressar certas coisas. Mas ouvir e ver Nina Simone como exemplo foi muito inspirador. Ela me mostrou outro caminho. Eu aprendi estudando artistas que me inspiravam e, ao longo dos anos, encontrando minha própria voz.
Também amo a habilidade de improviso dela. Você pode ouvir a versão de estúdio de uma música, depois uma versão ao vivo, depois outra, e são dez versões diferentes, com pequenas mudanças que tornam cada apresentação única. Às vezes, até a letra muda um pouco.
Eu faço isso também. Tenho uma música lançada de um jeito, mas, ao vivo, não quero repeti-la exatamente igual todas as noites. Às vezes você sente emoções novas, a música ganha novos significados, e isso torna a apresentação melhor. Quando alguém pergunta por que não cantei exatamente como no disco, eu penso: se você quer ouvir daquele jeito, a gravação está lá. O que você está vivendo agora é ao vivo. É real. É autêntico.
Com Sam Cooke, aquele disco ao vivo que coloquei no meu Top 5 é absurdo. Se você não ouviu, recomendo muito! A energia naquela sala é inacreditável. Ele me ensinou muito sobre shows ao vivo, sobre como as músicas mudam e sobre como se comunicar com o público. É uma experiência real, não uma apresentação teatral.
TMDQA!: Você já tocou no Brasil em 2023 e 2024 e agora volta com Passage. O que mudou na sua relação com o público brasileiro depois desses shows e como você chega para os próximos shows agora, em 2026?
Shawn James: Antes de ir ao Brasil, eu tinha uma ideia do país a partir de filmes, programas de viagem, coisas que via na TV. Eu também via muitos comentários dizendo “come to Brazil”, “come to Brazil”, e pensava: isso é real ou são só pessoas digitando? Então fomos, apostamos nisso, e eu nunca vou esquecer a intensidade, a emoção e a paixão do público.
Em alguns lugares onde tocamos, parece existir uma separação clara entre o público e o artista. Nós tocamos, as pessoas esperam, batem palmas no final da música, depois na próxima, e assim por diante… No fim do show, alguém diz: “foi o melhor show que eu já vi”. E eu penso: sério? Porque eu não senti isso vindo de você.
No Brasil foi diferente. A emoção, a intensidade e a paixão fazem vocês serem parte ativa do show. Vocês não estão apenas assistindo. Vocês estão envolvidos. Isso faz a apresentação parecer muito mais viva. A gente se entrega a isso. Não estamos apenas tocando as músicas. Estamos tocando para vocês, porque vocês dão essa energia e nós devolvemos. É uma troca.
Quando voltamos ao Brasil pela segunda vez, estávamos mais preparados. Pensamos em criar momentos, tornar aquilo ainda mais uma experiência, porque já sabíamos um pouco mais o que esperar.
Agora, voltando com Passage, acho que haverá uma mistura. Tem coisas que continuam, porque não há nada de errado com o que já aconteceu. Mas cada apresentação precisa ser diferente, precisa ser uma experiência única. Vamos tocar oito ou nove músicas novas do disco, mas também vamos tocar clássicos antigos de novas formas. Through the Valley, por exemplo, é uma das músicas mais populares, mas eu não quero apenas repeti-la do mesmo jeito. A gente recria, dá uma vida nova. É uma experiência diferente da última vez.
Nunca pensei que um dia pudesse viajar pelo mundo, tocar em lugares diferentes e me conectar com culturas e pessoas tão diferentes. Isso ainda me impressiona. Estamos animados para compartilhar músicas novas, emoções novas, cantar junto as antigas e trazer de volta algumas canções que não tocamos da última vez e que muita gente pediu. Existe uma energia no Brasil e na América do Sul que não dá para recriar em nenhum outro lugar.
TMDQA!: Quando a gente tenta colocar sua música em uma caixa de gênero, parece sempre faltar alguma coisa. Tem folk, blues, rock, gospel, country, soul… Como você gostaria que sua música fosse descrita?
Shawn James: É uma pergunta difícil, e uma com a qual lidei a carreira inteira. Algumas músicas podem ser consideradas dark folk, como Through the Valley. Outras, como Curse of the Fold, têm algo de western, gótico, americana e country. Também tem rock and roll, gospel e blues.
É uma mistura das coisas que me inspiraram. Mas, se eu tivesse que escolher uma palavra, pensando na definição musical, acho que seria Americana. Quando você olha para a definição de Americana como gênero, é uma fusão de blues, gospel, rock, soul, folk, música latina, tudo em torno das Américas.
O problema é que, quando alguém ouve “Americana”, talvez pense em Johnny Cash, em country, e isso não é tudo. Essa é a dificuldade dos gêneros: você lida com a definição que outras pessoas têm daquela palavra. O que significa uma coisa para você pode significar outra para alguém.
Então é difícil responder. As músicas novas, os estilos mais interessantes, muitas vezes são misturas do que veio antes. Se eu tiver que responder pela definição, sim, é Americana, porque reúne todas essas coisas. Mas depende muito de como cada pessoa entende essa palavra.
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Liz Sacramento
Shawn James fala sobre “Passage” e música como terapia antes de shows no Brasil




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