TMDQA! Entrevista: Finn Wolfhard se reinventa em “Fire From The Hip”

Finn Wolfhard, em material promocional
Divulgação

Se você ainda enxerga Finn Wolfhard apenas pelo retrovisor da nostalgia em Stranger Things, essa sexta-feira (10/07) marca a data oficial para você recalibrar suas expectativas. O músico, ator e diretor canadense acaba de lançar Fire From The Hip, seu segundo álbum solo. O som que sai dali não tem nada de digital, polido ou milimetricamente calculado para algoritmos.

Diferente da estética de quarto bagunçado de seu debut (Happy Birthday, de 2025), o novo registro foi inteiramente gravado em fita analógica de 24 canais no místico Pachyderm Studios, em Minnesota. O resultado? Um disco que pulsa como uma garagem enfumaçada nos anos 70, priorizando a eletricidade, o suor e os erros que tornam o rock puramente humano.

Em conversa com o TMDQA!, Finn nos contou como trocou a perfeição do Pro Tools pela crueza dos Rolling Stones na era Exile On Main Street, relembrou a dificuldade de fincar raízes após uma infância vivida “no circo” da estrada e listou os 5 discos que moldaram sua vida. Se liga!

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TMDQA! Entrevista Finn Wolfhard

TMDQA!: É uma honra fazer esta entrevista, Finn, muito obrigado por nos atender! Cara, gravar em uma fita de 24 canais exige desapegar completamente do perfeccionismo digital. Qual foi o “erro mais bonito” ou a imperfeição que aconteceu durante os takes ao vivo de Fire From The Hip que você se recusou terminantemente a editar ou regravar?

Finn Wolfhard: Essa é uma ótima pergunta! Eu sinto que, de alguma forma, quase toda música do disco tem um grande erro (ou pelo menos o que eu considero um erro). Não acho que a maioria das pessoas vá notar, são pequenos detalhes.
Mas eu me lembro de uma faixa chamada “Oscilloscope“, uma música super rápida, de um minuto e meio. Nós a gravamos com a banda inteira tocando junta na mesma sala, como se estivéssemos ao vivo em um show, e por ser tão curta, ficamos naquela de: “beleza, vamos fazer de novo, mais uma vez, mais uma vez”.

Quando fomos ouvir no estúdio, pegamos o penúltimo take. No último, tecnicamente falando, tudo estava um pouco mais limpo e menos desleixado, mas para mim, o penúltimo tinha algo que combinava perfeitamente com a proposta da música. Eu queria que ela soasse meio largada, meio slacker, não 100% perfeita. A banda Minutemen foi uma grande inspiração ali.
Lembro que o Ramsey, nosso baixista, me disse: “putz, não sei… Eu queria muito regravar esse baixo, não fiquei muito feliz”. Eu olhei bem para ele e disse: “não vamos voltar atrás, está perfeito”. Aquele pequeno vacilo que ele deu é exatamente o que dá personalidade à música. Foi assim que abordamos quase todo o álbum: testando até onde podíamos ir com os erros.

TMDQA!: Geralmente, o estúdio permite criar camadas infinitas, mas você fez o oposto: trouxe a energia caótica e suada da estrada para as gravações. Qual foi a parte mais difícil de traduzir a espontaneidade do palco para a fita analógica?

Finn Wolfhard: O equilíbrio. Quando você está fazendo um show, tudo é muito espontâneo – todo mundo toca de um jeito que reflete sua própria personalidade, e é isso que torna os shows incríveis. Eu queria colocar essa energia no disco, mas, ao mesmo tempo, um álbum exige ser um pouco mais deliberado e refinado do que uma apresentação ao vivo.
O difícil foi dar espaço para que os músicos fizessem linhas de instrumentos com as quais estivessem felizes, que pudessem chamar de suas, mas sem perder de vista o meu papel como produtor. Foi um equilíbrio delicado entre fazer com que o processo parecesse muito colaborativo, mas mantendo a palavra final comigo. Correu tudo bem, até porque trabalhei com amigos maravilhosos.

TMDQA!: Se o Happy Birthday tinha a textura de um quarto íntimo, Fire From The Hip traz a atmosfera de um porão nos anos 70. Teve algum equipamento específico, como um pedal vintage ou uma guitarra, que virou a espinha dorsal desse novo som?

Finn Wolfhard: Com certeza! Fico muito feliz que você tenha sentido isso, porque era exatamente a vibe que eu queria passar, nós usamos muitos equipamentos vintage. Eu usei uma guitarra Gibson SG bem antiga que estava no estúdio e passamos os instrumentos por um sistema de caixas Marshall Stack. Na minha cabeça, os Marshalls são o amplificador clássico do rock.

Também usamos um instrumento chamado “optigan”, ele funciona de forma parecida com loops de fita, mas usa uns disquinhos de plástico. Tem uma banda chamada Sparklehorse que eu amo de paixão – tenho certeza de que você conhece – e eles usam o optigan em quase tudo.
Ficamos super empolgados no estúdio pensando: “Cara, vamos ter o nosso momento Sparklehorse!” [risos] Quando cheguei ao Pachyderm Studios, me senti em uma loja de doces. Eles foram extremamente generosos com a gente.

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TMDQA!: Para quem te acompanha desde as bandas Calpurnia e The Aubreys, e também pela sua carreira nas telas: quem é o Finn Wolfhard que estamos conhecendo agora em 2026?

Finn Wolfhard: Acho que estou tentando mostrar uma versão mais pura de quem eu sinto que sou hoje. Eu sei que as pessoas sempre vão me enxergar como aquele garoto super jovem de Stranger Things, e eu sou eternamente grato por essa série, mas, ao mesmo tempo, você não quer ser visto como “aquela criança” o tempo todo. Você quer ser levado a sério como um jovem adulto tentando descobrir as coisas da vida.

Quero que este disco mostre que a música é algo que importa para mim há ainda mais tempo do que a atuação. Essas músicas são muito pessoais, mas também são histórias. Tentei incorporar um senso de humor sobre a passagem do tempo.

TMDQA!: Suas letras sempre dialogaram muito bem com a ansiedade e com a nostalgia. Como é a experiência de escrever sobre solidão e crescimento pessoal quando se vive dentro de uma van de turnê, constantemente cercado por barulho? O caos ajuda a silenciar esses sentimentos ou os amplifica?

Finn Wolfhard: Faz as duas coisas: amplifica e depois acalma. Eu tive uma infância e uma vida bem fora do tradicional, sempre na estrada.
O que acho mais incrível no meu trabalho é que consigo fazer amigos no mundo inteiro, o que é maravilhoso. Por outro lado, é uma “vida de circo”, sabe? Você cria conexões e, de repente, precisa ir embora. Conforme vou ficando mais velho, sinto um instinto maior de ficar mais parado.

Quando você vive nesse “circo” desde criança, chega uma hora em que você quer fazer parte de uma comunidade. Estar de volta a Vancouver, poder ver os amigos com quem cresci e tentar ficar por aqui o maior tempo possível tem sido ótimo. Quero encontrar um lugar que eu possa chamar de lar, onde eu possa realmente sentar e relaxar. Isso com certeza foi uma parte gigante na composição do disco.

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TMDQA!: Infelizmente o nosso tempo está curto, então vamos de rodadas rápidas. Se alguém colocasse o Fire From The Hip no som do carro, qual seria a paisagem ideal e o horário perfeito para ouvir o álbum pela primeira vez?

Finn Wolfhard: Em uma viagem de carro no verão! Uma viagem pela Colúmbia Britânica, que é de onde eu sou, no Canadá. Seria lindo dirigir pelas montanhas do norte de lá durante o verão.

TMDQA!: Na tracklist, há uma música chamada “Common Side Effects”. Se esse disco fosse um remédio de tarja preta, qual seria o principal efeito colateral na mente do ouvinte?

Finn Wolfhard: [risos] Essa é difícil! Olha, se você ouvir com o volume alto demais, o efeito colateral provavelmente vai ser uma bela dor de cabeça!

TMDQA!: Perfeito! [risos] Para fechar, meu nome é Eduardo e temos uma tradição clássica no Tenho Mais Discos Que Amigos!: você poderia citar cinco discos que mudaram a sua vida?

Finn Wolfhard: Meu Deus, vamos lá!

  • Help! (The Beatles): Foi o primeiro álbum deles que ouvi e o que me deu vontade de tocar música para começo de conversa.
  • Rocket to Russia (Ramones): Minha mãe me mostrou Ramones quando eu era muito moleque, foi o que me introduziu ao punk rock.
  • Down in Heaven (Twin Peaks): Eles são grandes amigos meus, colaboradores de longa data e pessoas que eu admiro muito. É um dos meus discos favoritos.
  • Exile on Main Street (The Rolling Stones): Meu álbum favorito dos Stones. Amo a produção dele, acho boa demais.
  • Yankee Hotel Foxtrot (Wilco): Um álbum que eu amo profundamente.

Esses são os que me vêm à cabeça agora de primeira, mas com certeza existem muitos outros!

TMDQA!: Escolhas incríveis, Finn. Muito obrigado pelo seu tempo, foi um grande prazer e parabéns pelo disco!

Finn Wolfhard: Cara, o prazer foi meu. Muito bom conversar contigo. Obrigado!

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Eduardo Ferreira

TMDQA! Entrevista: Finn Wolfhard se reinventa em “Fire From The Hip”


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